31 de março de 2012

A arte e as artes das crônicas de Ivan Ângelo


Há alguns meses, o Diário do Comércio de São Paulo publicou a seguinte resenha:


As crônicas de Ivan Angelo,
pequenas  joias de papel

Renato Pompeu

São 48 crônicas publicadas na revista “Veja São Paulo”, a bem conhecida “Vejinha”, mais uma até agora inédita e outra que saiu no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, mas acima de tudo são 50 obras-primas, verdadeiras estatuetas de sons e significados, esculpidas com mão de quem é mestre e com coração de quem ama a humanidade e o humanismo. Afinal, são crônicas de Ivan Angelo, aos 75 anos um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, editadas em “Certos homens”, livro lançado esta semana pela Arquipélago, dentro da Coleção Arte da Crônica.
Tenha como tema o antigo hábito do footing (na praça principal da cidade, as moças ficavam circulando no centro da praça, num sentido, e os rapazes formavam um anel externo, circulando no sentido oposto, o que possibilitava troca de olhares, acenos e outros gestos e expressões), ou se ponha a discutir por que as roupas das mulheres não têm bolsos, Ivan Angelo resgata as melhores tradições da crônica, um gênero tipicamente brasileiro que teve entre seus cultores grandes nomes como Machado de Assis, romancista como Ivan Angelo, e Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Angelo.
Aqui devemos notar o que representa a crônica na literatura brasileira, muito longe de ser um gênero menor como nem chega a ser em outras literaturas. No século 19, quando ainda se estava em meio à criação da nação brasileira, num país atrasado, dominado pela escravidão e outras misérias, se tinha como modelo a então jovem modernidade europeia, num continente em que, especialmente na França, a crônica tinha surgido na imprensa como crônica de amenidades, disponibilizadas pelo acelerado desenvolvimento capitalista de então. Eram textos sobre as festas, os casamentos, as fofocas de sociedade, as novidades das Galerias LaFayette, as primeiras lojas de departamentos da história.
Ao ser transposto para o Brasil, o novo gênero, mais jornalístico do que literário, criou dificuldades para os escritores nacionais. Como falar amenidades sobre um país que não as tinha, em que imperavam as violências e as brutalidades da escravidão e das sequelas do colonialismo? A solução foi falar amenamente de coisas que não eram amenas, e assim Machado de Assis, por exemplo, falou amenamente do duro trabalho dos operários nas pedreiras do Arsenal de Marinha, João do Rio falou amenamente da violência nas ruas cariocas. Mas o principal, em termos de literatura, foi a criação de uma linguagem própria da crônica, uma estruturação interna que a foi logo diferenciando, de um lado, em relação ao tradicional artigo jornalístico; de outro, em relação ao conto.
Com o tempo, mudou o Brasil e mudou a crônica. Na medida em que o Brasil se foi modernizando, em especial a partir dos anos 1950, passaram a existir temas mais amenos na sociedade nacional. Surgiu então a crônica plenamente literária, na pena encantada de Rubem Braga e outros cultores. A essa altura a crônica estava perfeitamente consolidada como gênero tipicamente brasileiro. Nos anos do regime militar, voltou a crônica a tratar amenamente  de situações não amenas, como nas obras de Stanislaw Ponte Preta e do próprio Drummond. Nas últimas décadas desde a restauração da democracia, e nos últimos anos de relativa prosperidade econômica, voltaram a predominar os temas amenos – mas neste livro agora lançado Ivan Angelo também tem crônicas que falam agradavelmente de coisas desagradáveis, como as vicissitudes de nossa política tão corrompida e as peripécias da violência tão presente em nosso cotidiano.
O mais importante, no entanto, é a nobreza, a perfeição com que Ivan Angelo trata a sua escrita, o gênero crônica e, acima de tudo, os seus leitores e leitoras. Cada crônica sua, seja sobre o homem que anuncia que “precisa ir embora”, seja sobre a figura do carroceiro, é uma pequena joia de papel, lapidada com cuidados de artista minimalista. São obras de arte em miniatura, e é notável como Ivan Angelo consegue criar em cada crônica uma pincelada irretocável de cotidiano, em que ao mesmo tempo não falta nada e nem sobra nada. É uma perfeição ao mesmo tempo de joalheiro e de arquiteto.
Mineiro de Barbacena, Ivan Angelo radicou-se em Belo Horizonte, onde se consagrou como jornalista e logo como ficcionista, com os livros “Homem sofrendo no quarto”, de 1959, e “Duas faces”, de 1961, de contos. Desde 1965 mora em São Paulo e se consagrou como romancista com “A festa”, em 1975, e “A casa de vidro”, em 1979. Ganhou mais de uma vez o Prêmio Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte, e foi consagrado pelo Ministério da Cultura entre os autores das 125 obras mais importantes das letras brasileiras. Seus maiores prêmios, no entanto, são o deleite e a reflexão que provoca em seus leitores e leitoras, como nessas crônicas primorosas embrulhadas em papel para presente de Natal.

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